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José Carlos Rodrigues

Capítulo 2— A casa abandonada

 

Acordou de madrugada com o cantar dos galos. “No Canadá toda a gente dorme, a esta hora”, pensou, enquanto bocejava.

Desceu até à cozinha principal e o facto da sua mãe já estar acordada e activa não o surpreendeu…

-         Bom dia, mãe, porque acordou tão cedo?

-         Bom dia, filho – respondeu ela. – Lá diz o ditado: deitar cedo e cedo erguer, dá saúde e faz crescer. Hoje vai ser um grande dia! Já dei de comer a todos os animais e vou preparar um almoço maravilhoso para nós. Apetece-te alguma coisa em especial? – Perguntou.

-         A mãe deitou-se muito tarde. Não quero que se preocupe por minha causa… Além do mais, eu já não como tanto como dantes. Tenho que ter cuidado com a minha alimentação por causa do meu problema nas costas. – Disse António.

-         Que conversa é essa? Estás magro como um cão! Olha que um saco de batatas não se mantém de pé, se estiver vazio. – Advertiu a mãe.

-         Sim, mas o saco cheio só se segura, se as batatas não forem podres… E isso é válido também para o tipo de alimentação que fazemos. Carne, açúcar e gordura animal em excesso são um veneno para a minha saúde. Agora, como muito mais vegetais, fruta e cereais. Às vezes também como peixe ou frango. Por isso, perdi bastante peso e sinto-me bastante melhor. – Explicou António.

-         Já tiveste melhor aspecto. Agora estás muito magrinho. Se não medras um bocadinho, as pessoas vão começar a chamar-te padre Himalaya, - avisou.

Era a segunda vez, num espaço de tempo demasiado curto que António ouvia o nome do padre. Apesar de, neste caso, ser mais normal, uma vez que a sua mãe há muito que sabia da existência desse homem alto e magro que em tempos foi o mítico pároco da freguesia. Antes de ter tempo para qualquer comentário, António distraiu-se com o delicioso aroma a café. O processo era simples: primeiro, fervia a água, depois, retirava a cafeteira do fogão, adicionava o café e levava de novo a lume brando até ferver de novo. Antes de servir, esperava um pouco para que a borra descesse e o café ficasse limpo.

O pão com chouriço caseiro acabara de sair do forno! A António tudo lhe fazia lembrar os bons velhos tempos. Era impossível resistir! “Talvez  possa continuar a dieta quando voltar ao Canadá”, pensou. Acabou por encher o prato, para alegria da sua mãe.

-         Sabes, não fazia este pão de milho – começou ela – desde que a tua avó faleceu. Foi ela que me ensinou a fazê-lo... Adorava este pequeno-almoço! Mas hoje, contigo aqui, vale mesmo a pena todo o trabalho! Ai, que felicidade quando vocês chegam, tu e os teus irmãos! Só queria que vivessem todos aqui perto da gente. Ainda mais agora que a tua avó desapareceu... sinto-me muito só, sabes? Quando estava em Kitchener e trabalhava na fábrica de sapatos, pelo menos tinha colegas com quem conversar. Eu sei que era trabalho duro, mas pelo menos era divertido. Aqui só tinha a tua avó. Os jovens emigraram todos ou trabalham longe...Não é a mesma coisa. Esta aldeia está a ficar cheia de velhos e, parece-me que eu para lá caminho... – Concluiu com lágrimas nos olhos.

-         Não fique triste, mãe. Eu também sinto falta da avó, mas pelo menos, temo-nos uns aos outros e muitas memórias boas. Sabe, de cada vez mais, tenho a certeza que há uma razão para estarmos aqui e que devemos aproveitar todos os momentos ao máximo. A mãe nunca envelhecerá, se pensar como a avó pensava. Lembre-se de como ela estava sempre cheia de vida e adorava estar na sua cazinha. Ela foi uma pessoa alegre e viveu uma vida feliz e longa. Temos que tentar seguir o seu exemplo. – Disse António.

-         Como está o pão? – Perguntou ela, mudando de assunto.

António sabia que ela não gostava muito de falar de si, por isso não voltou a puxar o assunto. Afinal, a sua avó era mãe dela e se havia coisa que ele não gostava, era de ver a sua mãe triste.

-         É o melhor pequeno-almoço da minha vida, mãe! A mãe sabe bem que eu sempre gostei disto... o café está maravilhoso! – Exclamou com um enorme sorriso.

-         Então, o que vais fazer, hoje? – Disse ela, devolvendo-lhe o sorriso.

-         Acho que vou até lá acima, ao cemitério...

-         Óptimo. De caminho, vai dar uma volta pelos campos e vê as transformações que o teu pai fez. Agasalha-te e leva um guarda-chuva! – Aconselhou agitadamente.

A vontade de António era ir já, mas ele sabe que em casa da sua mãe, ninguém salta da mesa. Isso mostraria uma tremenda falta de respeito pela comida e pelas pessoas. As refeições são um momento quase sagrado. Uma óptima regra para combater o stresse, pensou António. Talvez seja por isso que as pessoas ali vivem mais tempo, apesar de não terem grandes confortos. Só pode ser da vida que levam.

António vestiu roupas quentes e decidiu ir a pé, em vez de conduzir. Era um bom pretexto para fazer exercício e cuidar um pouco da sua saúde.

Primeiro, visitou os animais. Era uma espécie de rotina das suas férias em Portugal.  Depois esticava as pernas ao longo dos pomares e vinhas que o seu pai cuidava. Foi com especial deleite que verificou a maturidade das árvores que ele e os seus irmãos ajudaram a plantar e a podar.

Uma laranja doce e fresca, retirada da árvore, completou o seu pequeno-almoço. No Inverno as laranjas eram mais doces, recordou com prazer, sentindo o sumo escorrer-lhe pelo rosto. Enquanto descascava outra laranja, viu-se invadido por uma mistura de cheiros agradáveis da laranja, das árvores à volta, daquele ar tão puro, e sorriu. Um sentimento profundamente nostálgico apoderou-se dos seus sentidos e da sua memória.

Prosseguiu a sua caminhada pelos campos, onde um dia tanto trabalhou. Reflectiu sobre o vigor que a terra exige, sobre o tipo de alimentação que lhe está associada, e entristeceu-o a sua falta de saúde. Rapidamente sacudiu esse pensamento, advogando para si o fracasso da lei do mais forte em inúmeras situações da vida actual. Sabia que, mesmo sem estar no apogeu das suas capacidades físicas, tinha um papel preponderante a desempenhar na sociedade.

Começou, então, a desenhar o seu percurso rumo ao norte do campo, onde os jornaleiros podavam a vinha, - começaram muito cedo, pois os dias de Janeiro acabam rapidamente e ainda há que lhes descontar as duas horas para o almoço. O som familiar das tesouras espalhava-se orquestralmente pelos campos, e António há muito que o escutava. Era uma melodia que as suas mãos e a dos seus irmãos ajudaram a construir, antes de todos se mudarem para o Canadá. Agora, o seu pai via-se obrigado a contratar trabalhadores para fazer um serviço que antes era uma tarefa familiar. Hoje em dia, viver da vinha significa fazer uma gestão apertada entre as despesas e os lucros.

Galgou cada pedaço de terra até ao ponto mais alto, onde se encontrava uma velha casa abandonada, completamente vazia, se não fossem as memórias que a preenchiam. Era A casa do Casal, onde viveram todos os seus antepassados, os seus pais incluídos, logo que casavam. Para António este era um lugar mágico, não tivesse sido aí que ele e os seus irmãos nasceram e viveram nos primeiros anos de vida.

A sua mãe contara-lhe, um dia, as histórias dos seus nascimentos. Segundo ela, foi Alberto, o mais velho, quem lhe deu o trabalho de parto mais difícil. Quando as águas rebentaram, ela estava a trabalhar no campo, e ainda concluiu o que estava a fazer. Só depois chamou a parteira, a sua tia Glória. O bebé era grande e forte e se não fossem as indicações sábias da parteira, ela não teria conseguido levar o parto a bom termo. Uma cadeira serviu-lhe de apoio às pernas, onde despejou todas as suas forças. Foi o único parto que lhe causou dores até às lágrimas, mas nada que uns dias de pernas esticadas e panos quentes não resolvesse.

Ora, no norte havia a tradição de se matar o melhor galo da capoeira para festejar o nascimento de uma criança, de preferência um que tivesse o mau hábito de cantar à meia-noite. Por tradição cristã, os galos que gostavam de serenatas à meia-noite não eram vistos com bons olhos. Dizia-se que davam azar, mas o mais provável era que os lavradores, derrotados pelo trabalho diário, não apreciassem ser acordados a tão altas horas...

Uma boa canja de galinha, com rodelas de cenoura tenra era preparada para que a jovem mãe se alimentasse nos dias que seguiam o parto.

O cordão umbilical de um rapaz seria cortado mais longo. Acreditava-se que, com esse acto, o tamanho do seu órgão sexual poderia ser proporcionalmente maior. Mas isso, pensou António, é garantidamente falso! Outro dos rituais de nascimento era uma espécie de baptismo caseiro, feito pela parteira, com um pouco de água e umas orações à mistura. A mortalidade infantil à nascença era muito frequente, por isso, o baptismo era uma forma de, em caso de morte, a criança não demorar muito tempo no dantesco purgatório e fosse serenamente devolvida aos céus. Um baptismo formal na igreja teria lugar, logo que o pai chegasse do estrangeiro.

Quando Alberto completou dezoito meses, nasceu António e catorze meses depois, chegou o Salvador. Todos nasceram naquela velha casa, agora abandonada.

António entrou na casa, pela porta da cozinha. Não era apenas uma cozinha. Era o centro da casa e o centro do universo.

A casa tinha apenas um quarto, uma cozinha e uma adega. Quando a natureza apertava, tinham que se deslocar a um barracão de madeira, fora de casa. Para tomar banho, havia uma grande bacia de barro. A água quente vinha de dentro do pote de três pernas que estava sempre à lareira. Todos os sábados à noite se repetia o ritual do banho completo, para que os rapazes estivessem preparados para assistir à missa, na manhã seguinte. As suas roupas de domingo cheiravam a naftalina, por estarem guardadas em caixas de madeira, e a sua variação era exclusivamente de tamanho.

À direita de quem entra, podia ver-se o velho forno de barro e pedra, onde se fazia o pão de milho. A sua avó fazia fornadas de broa que duravam uma ou duas semanas. Fazer pão era uma arte, e casa que fosse conhecida por fazer o melhor, era, seguramente, muito prestigiada. Algo que também acontecia com quem tivesse o melhor vinho, as maiores colheitas e o gado mais saudável.

Ao lado do forno de barro, ficava a maceira, uma espécie de mesa de madeira, com uma caixa embutida, onde a farinha se mantinha sempre fresca e onde se amassava o pão.

As mulheres sentavam-se ao sol a debulhar o milho, escolhendo o mais seco para levar a moer ao moinho da terra, dentro de sacos de linho feitos em casa.

Os moinhos mais importantes do norte de Portugal passavam de geração em geração, desde os tempos dos senhores feudais, da época medieval. Ainda movidos a água, estes locais serviam de ponto de encontro, algo que foi mais tarde substituído pelos cafés. No local, os sacos eram pesados numa balança muito antiga, e uma percentagem do milho era posta de lado, era a chamada maquia. Feito isto, ou se trocava o milho por farinha, ou esperava-se a vez para moer o próprio milho. A maior parte das mulheres tinham muito orgulho no seu milho, por isso, esperavam até que ele moesse. Para além disso era uma boa oportunidade para pôr conversa em dia, partilhar histórias, saber notícias de outras partes ou, simplesmente, falar da vida alheia, num interminável diz que disse.

Regressavam com a farinha ainda quente de tanto rodar na pedra molar e colocavam a farinha na maceira. Depois faziam a massa, de acordo com a tradição e os segredos de cada família, e deixavam-na ficar a levedar durante cerca de uma hora. Passado esse tempo, era dividida em cinco ou seis pedaços redondos, previamente polvilhados com farinha.

O segredo da massa era o fermento. Se o que ficava guardado da fornada anterior, tivesse azedado, teria que se pedir algum emprestado a uma vizinha, mas o pão não ficaria com o sabor desejado.

O forno, seria então varrido, de forma a retirar todas as brasas remanescentes da fogueira que durante duas horas ardeu até atingir o aquecimento ideal para cozer pão. As broas em massa eram, então, colocadas dentro do forno, de trás para a frente, com a ajuda de uma pá de cabo longo.

 

António lembrava-se de a sua avó dizer que fazer o pão no Inverno podia ser muito perigoso para a saúde, se a pessoa saísse de casa depois de tão longa exposição ao calor. Claro que ele sempre achou que isso era um disparate, mas depois que foi viver para o Canadá começou a perceber melhor o que a sua avó queria dizer e reconsiderou muitas das opiniões que tinha acerca desta e de outras sabedorias populares. De facto, foi no Canadá que ele percebeu o mal que pode causar entrar e sair de casa e debater-se com brutais choques térmicos. E isso, verificava-se tanto no Inverno como no Verão, por causa do aquecimento e do ar condicionado, essenciais nas casas deste país.

A porta de madeira cerrava o forno, logo que todas as broas estivessem no seu interior. Em tempos, era usada uma pasta feita de bosta de gado, mas a sua avó usava os restos da própria massa para vedar a porta, de forma a que o calor não saísse. Três horas depois, essa porta era puxada e uma nuvem de poeira confundia-se com um maravilhoso odor a pão fresco que invadia a cozinha.

Enquanto caminhava em redor da sua velha casa, António conseguia sentir esse cheiro a pão fresco. Olhou para a enorme lareira, ao lado do forno. Era para lá que as brasas do forno eram varridas e aproveitadas para fazer a deliciosa broa com chouriço, que António comera ao pequeno-almoço. A broa espalmada era coberta com pequenas rodelas de chouriça caseira e depois de assada no forte braseiro, era envolvida em folhas de couve. Esta broa de chouriço, acompanhada com uma boa tigela de vinho tinto era um petisco para o corpo e para a alma, principalmente no frio mês de Janeiro.

A grande pedra da lareira suportava três enormes potes, negros pela exposição de anos a fio ao lume. Um deles estava sempre cheio de água, o outro com pimentão e carne de porco, ou sopa de feijão e outros legumes.

A casa não tinha água canalizada, por isso a água fresca ia buscar-se ao fontanário público. As mulheres, sobretudo as mais jovens, encarregavam-se de carregar os pesados cântaros de barro, amortizados na cabeça por uma rodilha de pano. Enquanto pensava nisto, António não pôde deixar de invocar o grande poeta português do século XVI, Camões: Descalça vai para a fonte Leonor pela verdura... Era inevitável pensar que as descrições camonianas eram uma realidade do mundo da sua infância e isso incluía os encontros românticos na fonte.

De facto, havia muito de verdade nesses poemas renascentistas. O mais provável era que, enquanto as raparigas enchiam os seus cântaros de água, os seus apaixonados estivessem por lá a recitar os seus sentimentos em verso. As raparigas tinham sempre a mesma hora para ir à fonte, de forma que os rapazes sabiam perfeitamente quando simular a sua passagem casual. A avó de António contava-lhe que nunca respondeu ou sequer olhou para o seu avô, até ao dia em que teve a certeza que era ele a pessoa certa para casar.

No Verão, os grilos desenhavam um caminho até ao interior da casa e faziam lar das fendas que existiam na enorme pedra da lareira da cozinha. Durante o Inverno a sua cor alterar-se-ia de preto para cinzento e eles tratariam de entreter as pessoas com os seus cânticos, durante as frias e longas noites de Inverno.

Havia outros passatempos. Abundavam os contadores de histórias, os jogos de cartas ou damas e até uma roda de dança ao som da concertina, mantinha as pessoas divertidas e acordadas. Agora, os tempos são outros, pensou António com alguma nostalgia. Os seus tempos livres no Canadá eram passados a ver televisão ou a navegar na internet – actividades muito solitárias, portanto.

Ao centro da cozinha existia uma longa mesa, rodeada se bancos de madeira, que acomodariam mais de doze pessoas. A sua família já não era tão grande, mas os seus antepassados tiveram famílias numerosas. Aquela mesa era mais do que a mobília que ocupava um espaço na casa. Ela era o centro de conversas, discussões e gargalhadas, era a escrivaninha, onde conjuntamente se faziam os deveres escolares, à luz de uma única vela. Era, enfim, em redor dessa mesa que a sua vida se preenchia. Um dia aquele objecto simples representou o centro do Universo, para António.

Os seus olhos percorreram as duas portas de vidro da cristaleira antiga, encostada à parede.  Lá dentro repousaram outrora, a meia dúzia de peças de uma copa de qualidade ou de uma baixela incompleta, que só de lá saíam, por altura da visita pascal, num baptizado ou quando havia outras visitas. A loiça utilizada diariamente permanecia em cima da banca, numa velha prateleira de madeira.

A cozinha era simples, grande e de aspecto medieval. Na verdade, os utensílios e sua disposição pouco ou nada mudaram, desde os tempos feudais.

Os seus avós, apesar de cozerem o seu próprio pão, trabalhavam terras alheias. No tempo das colheitas, pagavam a renda dessas terras com milho e vinho – metade ficava para eles a outra metade para o proprietário das terras.

António avançou para o quarto, uma divisão igualmente simples. Tinha uma cama de casal feita de madeira de oliveira, em cima da qual repousava o colchão improvisado no seu interior com  folhas de espiga de milho, e um  guarda-roupa enorme, com um espelho inserido, que cheirava a naftalina. Era aí que todas as roupas de domingo eram guardadas. As roupas e o único brinquedo alguma vez comprado numa loja. Era uma aranha negra gigante, em  borracha, que o seu pai trouxera de França, país onde estava emigrado na altura. O pai costumava assustar as crianças com o medonho objecto. A intenção não era, portanto, que fossem os filhos a brincar, mas para divertimento da criança que restava dentro do pai. António e os irmãos teriam que ser suficientemente criativos, para fazerem os seus próprios brinquedos.

Saiu do quarto, que era em simultâneo uma espécie de sala de estar. Era aí que a sua mãe recebia a visita pascal e beijava os pés de cristo na cruz. António conseguia sentir a mesma alegria que sentia nessa altura. Quando a semana santa terminava podiam voltar a comer carne. Para os adultos era altura de festejar a ressurreição de Cristo, mas para as crianças o tempo era para provar todos os doces e iguarias disponíveis. António lembrou-se dos enormes rebuçados dos Arcos, que eram tão grandes que mal cabiam na boca, mas depois de uns bons vinte minutos a sugar, lá conseguia terminá-los e ficar com uma enorme dor de maxilares. Era uma estranha sensação de dor e prazer que lhe lembrava a Páscoa. Era um período feliz, em que todos estavam dispostos a celebrar.

As celebrações começavam antes do romper do dia. Os sinos da igreja tocavam alegria e o fogo de artifício acordava a aldeia inteira. Até os animais da quinta pareciam entusiasmados, nessa manhã – ou estariam só espantados com tanta agitação? A família de António acordava mais cedo do que em qualquer outro dia. Alimentavam-se os animais, aquecia-se água, o grande armário com a roupa nova era aberto e assim começavam as celebrações da Páscoa.

Depois da matutina missa pascal, a cruz percorreria todas as casas da aldeia. O padre, vestindo a sua melhor batina de cerimónias era acompanhado por dois rapazes, pelo mordomo e todos os festeiros responsáveis pelas várias confrarias da paróquia. Os rapazes e o mordomo vestiam uma capa vermelha por cima das roupas domingueiras, enquanto os confrades usavam capas idênticas a essas, mas de cores diferentes: azul para a confraria de SãoTiago, castanha para a de Santo António, e roxa para os representantes da confraria de Nossa Senhora.

A procissão saía da igreja com o rapaz da campainha, à frente de todos. Agitando a campainha, o rapaz marcava o ritmo e o percurso da procissão por toda a aldeia. Dessa forma, as pessoas sabiam por onde andava o compasso pascal (assim se chama a esta tradição do norte de Portugal), e poderiam prever o tempo que demoraria a chegar aos seus lares. A campainha não era muito pesada, mas ao fim de uma horas, o rapaz da campainha ficava muito satisfeito ao deixar os rapazes das redondezas tocar um pouco. Claro que isso só acontecia em troca de alguns rebuçados.

O rapaz da caldeira vinha logo a seguir ao da campainha e era ele quem primeiro entrava nas casas, ao lado do pároco. O padre abençoava a casa e a família, lançando alguma água benta da caldeira, como símbolo de purificação.

De seguida, chegava o mordomo com a cruz de Cristo crucificado. Logo depois da benção, dava os pés de Jesus a beijar a todos os presentes, começando pelo chefe de família e acabando nos convidados.

Atrás da cruz entravam todos os outros elementos que recolhiam donativos para a manutenção da igreja e para algumas festividades.

O compasso entrava em todas as casas que tivessem sido abençoadas pela igreja. Excluídos ficavam todos os lares de casais vivendo em união de facto, mães solteiras, ou outras pessoas acusadas de comportamentos vergonhosos para a igreja e para a comunidade.

Aqueles que, por qualquer razão válida, não recebiam a cruz, não espalhavam o tradicional funcho com flores nos terreiros de entrada de suas casas. Tratava-se, por norma, de pessoas com pouco espírito para celebrações. Estariam de luto ou doentes. Em caso de doença, o padre entraria sozinho para abençoar a pessoa enferma. Era como se a aldeia inteira fosse uma imensa família e as regras existiam para a manter dessa forma.

Enquanto se encaminhava para sair daquela casa abandonada, António sentiu-se subitamente cheio de vida. Era como se o passado estivesse com ele e alimentasse o seu espírito.

Depois, ouviu os sinos tocar e seguiu-lhes o som até ao cimo do monte, lá longe da quinta do seu pai.